Entrevista com Jan Gehl

O urbanista dinamarquês Jan Gehl foi o grande inspirador do Cidades para Pessoas. Por esse motivo eu marquei a entrevista com ele dois meses antes de viajar para Copenhague, a primeira cidade visitada pelo projeto. Mas assim que cheguei lá, a secretária dele me escreveu dizendo que ele estava ocupadíssimo com novos projetos e que não conseguiria me receber, mas que outro de seus sócios falaria comigo.

Claro, fiquei super desapontada. Tentei explicar que era importantíssimo para mim falar com ele, que todo meu projeto era baseado em seu trabalho, que 285 pessoas tinham financiado o Cidades para Pessoas para que eu viesse até aqui entrevistá-lo, que estávamos agendando essa data há quatro meses, etc etc.

Funcionou. Ele topou, então, me receber hoje, desde que a entrevista durasse exatos 40 minutos. Depois eu poderia falar com Jeff Risom, urbanista que trabalha com ele há dez anos e é seu braço direito. Topei.

Acordei hoje quatro horas antes do necessário. Tomei café, revi as perguntas, arrumei minha mochila, chequei se os cartões de memória estavam vazios, as baterias das cameras carregadas, e saí.

Peguei uma das bicicletas públicas em frente ao albergue e, 13 minutos depois, estava na porta do escritório, que fica em um prédio de 70 anos. Logo na entrada, dei de cara com um daquele elevadores antigos com armação de ferro e toda a estrutura à vista. À esquerda, uma placa dourada indicava os estabelecimentos comerciais que funcionavam no edifício.

“4 etage – Gehl Architects”.

Para minha tristeza, o tal elevador estava fechado (sempre fantasiei andar em um desses). Subi as estacadas, que eram forradas de carpete e tinham um corrimão de madeira lindíssimo – mas que denunciava os 70 anos do prédio. Quatro lances depois, duas portas me separavam dos dois únicos apartamentos daquele andar. Outra placa dourada, com uma setinha apontando para a porta da direita. Toquei a campainha. Dez minutos depois me aparece a secretária do Jan Gehl de hobby, escovando os dentes.

– Hi, I’m Natália, from São Paulo.
– Yes… and I’m Signe, from Copenhagen. (risos)
– I have an interview with Mr. Gehl.
– Oh, it’s the next door.

Não só aquela não era a secretária como aquele era um apartamento residencial.

Muito bem, eu nem tinha entrado no escritório ainda e tudo o que tinha lido sobre a importância de misturar funções (morar, trabalhar, consumir, comer, se divertir) pela cidade, em vez de setorizá-la, começava a se confirmar na prática.

Toquei, agora, na porta certa e fui recebida pelo Jeff Risom. Combinamos que a entrevista começaria com ele, depois o Jan Gehl assumiria. Risom me mostrou todo o escritório, um espaço amplo, bem iluminado, com mesas enormes servidas por luminárias individuais, diversos projetos de arquitetura pendurados pelas paredes e uma biblioteca na sala central. No caminho para a cozinha, Jan Gehl passa ao me lado, falando no celular.

Lembra quando, na escola, aparecia aquele menino (ou menina) por quem vc era apaixonada (o) e vc gelava? Então, foi exatamente assim. Nesse primeiro breve contato com ele só pude constatar que o homem é cheiroso e bravo.

Gosto.

____

Eu e Jeff Risom entramos na sala de reuniões para começar a entrevista. Falamos muito sobre São Paulo, Rio de Janeiro e de que maneira cidades como Conhagen e as outras que vou visitar com o Cidades para Pessoas podem nos ensinar a melhorar.  Às 11h em ponto a maçaneta fez um barulhão e Jan Gehl entrou. Aos 73 anos, ele está de saco cheio de dar entrevistas.

– Minha querida, há muito tempo que eu não recebo jornalistas, sou um homem muito ocupado e hoje mesmo tenho uma viagem no começo da tarde. Mas vejamos como posso te ajudar…

Expliquei a ele o projeto, meus objetivos, o financiamento por crowdfunding e disse que tudo aquilo tinha sido inspirado por ele. Gehl sorriu, tirou o paletó, trouxe a cadeira poucos centímetros mais para perto de mim e começamos a conversa.

Perguntei tudo o que eu e todos vocês queríamos saber: e aí? qual o caminho? Como fazemos para mudar nossa cidade? Para conscientizar as pessoas das nossas cidades de que não adianta construir mais ruas para darem lugar a mais carros? São Paulo tem solução?

– Minha querida Natália, quando você pergunta a uma criança o que ela quer no próximo natal, ela vai te responder com uma lista de objetos que ela conhece. Uma criança nunca vai querer algo que não conheca, certo? O mesmo se dá com as cidades. As pessoas só vão exigir cidades melhores de fato quando elas souberem COMO e o QUÃO melhores as cidades podem ser. Trabalhos como o seu são importantíssimos. Faça muitos vídeos, mostre como a lógica das cidades que vai visitar é muito mais agradável, como elas respeitam a escala humana, como elas oferecem opções mais interessantes para se locomover do que apenas asfalto para os carros e as pessoas vão querer lugares como esses. Se você realmente fizer um bom trabalho, você vai ajudar muito São Paulo a melhorar.

É isso, então. Repertório. É para isso que estou aqui. É para isso que vocês investiram seu dinheiro em mim.

Conversamos por 40 minutos.

A entrevista completa foi publicada na revista Vida Simples e você pode baixar nesse link.

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Natália Garcia é jornalista freelancer e passa boa parte dos dias pedalando pela cidade em busca de boas histórias.

10 Responses to “Entrevista com Jan Gehl” Subscribe

  1. Ione 22 de agosto de 2011 at 11:30 #

    Muito bom esse site. Estou com voces. Coloquei um post no meu blog a respeito dessa entrevista. Um abraço.

  2. Mariana 13 de novembro de 2011 at 18:59 #

    Parabéns pela iniciativa e por todo o trabalho. Também sou uma adepta da bicicleta como meio de transporte. Atualmente vivo em São Carlos-SP que é uma cidade com muitos ciclistas e muitos estudantes e onde o uso das bicicletas deveria ser incentivado, mas NÃO É. Não existem ciclovias na cidade e nem locais seguros para estacionar a bicicleta. As ruas são esburacadas e cheias de remendos no asfalto. A minha vontade era de convidar o prefeito e o arquiteto para uma volta de bicicleta.
    Além disso, sou original de Indaiatuba-SP que, um dia num passado distante, já foi chamada a cidade das bicicletas. A cidade é muito favorável à utilização da bicicleta por ser praticamente plana. Mas, novamente, o seu uso como meio de transporte não é incentivado. A prefeitura apenas divulga alguns passeios ciclisticos pelos pontos turisticos da cidade e, apenas no parque estão construindo uma ciclovia.
    Estou com vocês nessa pedalada.
    Abraço.

  3. Carmen Vidal-Hallett 15 de dezembro de 2011 at 12:18 #

    Natalia: Como voce tenho fascinação pelas cidades desenhadas para o ciclista e o pedestre. Nasci em Sao Paulo estudei arquitetura e urbanismo no Mackenzie mas depois de acabar a faculdade mudei para Madrid onde fiz meus cursos de doutorado em arquitetura e urbanismo e viajei pela Europa para conhecer todas as cidades europeias que você esta visitando e apreciar a qualidade de vida sem o carro!. Acabei indo morar a Chicago onde tenho a minha familia e filhos pois casei com um americano jornalista. Trabalhei por 13 anos em urbanismo na prefeitura de Chicago onde me incorporei ao "green team". Pensando sempre em voltar ao Brasil e talvez ajudar o meu pais fui a Curitiba em 2004 com meu marido e filhos para estudar e comparar a cidade com as iniciativas sustentaveis de Chicago. Larguei a prefeitura em 2006 e comecei o que considero a melhor parte da minha vida profissional com EcoVidalDesign fazendo so projetos que considero de beneficio ao qualidade de vida das cidades e centrada no ser humano. O ponto de partida para mim sao as criancas e a volta a natureza… Desde 2004 ja ganhei varios premios relacionados com arquitectura e urbanismo sustentável e criei um intercâmbio de arquitectura e urbanismo com o Brazil através de Partners of the Americas. Em Janeiro vou ao Rio de Janeiro com uma 'fellowship" por dois meses para ajudar a Subsecretaria de Economia Verde no Plano de Mudança Climática, na desactivação do lixao Parque Gramacho e na criação de um centro de tecnologia verde para o Rio de Janeiro. Seria muito legal compartir ideias com você. Boa sorte e bom trabalho! Sinceramente,
    Carmen Vidal-Hallett, President
    EcoVidalDesign http://www.ecovidaldesign.com

  4. Euderico 2 de fevereiro de 2012 at 09:25 #

    Parabéns Nati, não desista do seu SONHO "PERSISTA"
    Ando todos os dias pelas ruas do DF, vou trabalhar pedalando minha magrela. Afinal preciso de condiciomento físico para jogar PETECA.
    Euderico

  5. rafael Science 28 de março de 2012 at 11:44 #

    Engraçado como o conceito de Jan sobre cidade é pura filosofia. Ninguém tem liberdade se não pode escolher direito as opções oferecidas. Falar com pessoas inteligentes e pragmáticas é muito mais produtivo por esse motivo, estão preocupadas com a origem do problema e com solucioná-los.
    Vejo que aqui no Brasil a desinformação aliado a falta de educação provoca em geral uma discussão superficial dos problemas rotineiros. Que bom encontrar atitudes como desse Blog no Brasil, ajudando melhorar e promover as discussões sobre as cidades

    Continue o ótimo trabalho

  6. Joselita Alves 7 de maio de 2012 at 20:34 #

    Adorei essa idéia, já estou fazendo a diferença no meu livro, tenho como objetivo conscientizar às pessoas de um ambiente saudável e a bicicleta é um tema que encontra no meu livro.Breve compartilho a todos o tema do livro.

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