Atravessar a rua em Copenhague é uma experiência muito chocante para quem vem de São Paulo por uma série de motivos. O primeiro deles: não é preciso esperar muito tempo até que o farol de pedestres abra. Em uma das principais avenidas da cidade, a H. C. Andersens Boulevard, o tempo de espera até que o semáforo de pedestres fique verde é de 40 segundos. O segundo motivo de estranhamento: não é preciso correr para atravessar a rua. O pedestre possui 30 segundos para atravessar. E, quando o semáforo de pedestres fica vermelho, ainda há uma folga de aproximadamente 5 segundos até que o farol abra para os carros. Fiz um vídeo, abaixo, que mostra a diferença da experiência de atravessar a rua nas duas cidades.
Há um motivo para a experiência, em Copenhague, ser tão discrepante da nossa. Fazer a rua ser mais agradável para os pedestres e aumentar o número de pessoas se locomovendo a pé é uma das prioridades da prefeitura da capital dinamarquesa. E a estrutura de governança da prefeitura permite que esse tipo de prioridade realmente seja refletida na cidade.
“A prefeitura de Copenhague é a maior empresa da cidade”, me disse Pernille Nørrby, que chefia um dos setores da secretaria de meio ambiente da cidade chamado, o Departamento de Vida Urbana. O departamento estabeleceu o conceito de que vida urbana é a experiência, a expressão e o movimento gerados pelos encontros entre pessoas na cidade. Seu objetivo é melhorar a qualidade de vida dos moradores e visitantes de Copenhague.
E se esse papo está soando um tanto hipponga, não se engane. Os dinamarqueses consideram a qualidade de vida como um importante trunfo econômico. “Essa é a nossa vantagem competitiva quando ‘jogamos poker’ com as cidades que competem economicamente conosco”, ilustra Pernille. Segundo ela, ainda não há dados ou indicadores que relacionem cientificamente a qualidade de vida em Copenhague a benefícios econômicos. “Mas quando uma empresa escolhe onde se estabelecer, esse é um fator que pode atraí-la”, diz ela. “O mesmo acontece com a mão de obra qualificada, que busca um lugar agradável para morar”, completa.
Planejamento para qualidade de vida
Em 2008, todos os setores da prefeitura de Copenhague se uniram para estipular um plano de metas para 2015. A partir das diretrizes definidas, cada departamento elaborou suas próprias metas específicas para chegar ao resultado que a prefeitura queria: uma cidade mais sustentável e com mais qualidade de vida.
O Departamento de Vida Urbana desenvolveu, na época, três objetivos maiores:
1. Vida Urbana para Todos
“Esse é um tópico que fala sobre variedade”, explica Pernille. O objetivo era fazer com que os espaços públicos fossem convidativos a todas as idades e classes sociais – e igualmente aproveitados por eles. A meta era atingir um nível de satisfação de 80% da população em relação à vida urbana.
2. Aumento dos deslocamentos a pé
“Andar é bom para o meio ambiente, a saúde das pessoas, a sustentabilidade da cidade e para a vida urbana como um todo” explicou Pernille. Ela defende que caminhando as pessoas experienciam a cidade de um jeito único – “muito mais interessante do que os outros, na minha opinião”. Hoje na divisão modal da cidade, 30% dos deslocamentos são feitos de bicicleta, 27% de carro, 17% de transporte público e 27% a pé. A meta é aumentar em 20% as viagens feitas por pedestres. Para atingi-la, as medidas práticas estabelecidas foram:
mais áreas verdes
mais calçadas
melhorar a limpeza nos espaços públicos
melhor qualidade de ar
melhor iluminação
mais segurança em relação ao crime e ao tráfego de veículos
mais informação sobre como percorrer a cidade a pé
mais faixas de pedestres
melhor pavimentação das ruas e calçadas
melhor integração com o transporte público
desenvolver a cultura de que a cidade PODE ser percorrida a pé
“Talvez aumentar o número de viagens feitas a pé em 20% seja uma expectativa ilusória, mas ainda que só alcancemos metade disso o importante é saber que estamos caminhando na direção correta”, diz Pernille.
3. Aumento da permanência das pessoas em espaços públicos
“Quanto mais gente na rua, melhor a vida urbana, simples assim”, diz Pernille. Nesse sentido, o departamento propõe aumentar a oferta de atividades para se fazer em espaços públicos na cidade. Que se diga que já não são poucas: os canais possuem água limpa, onde os dinamarqueses podem nadar, há uma porção de quadras poliesportivas públicas e parques para a prática de esportes, além de churrasqueiras, fornos e mesas públicas para preparar refeições nas ruas. “As pessoas tendem a ser mais felizes quando estão na rua aproveitando a cidade”, finaliza Pernille.
Em 2011, o departamento decidiu fazer uma série de pesquisas para analisar o andamento dessas metas. Uma das perguntas foi sobre a satisfação dos moradores com a vida urbana da cidade. E qual não foi a surpresa ao ver que a meta de 80% de satisfação não só tinha sido atingida como ultrapassada: 89% se disseram felizes com a vida urbana de Copenhague.
Enquanto isso, em São Paulo, seguimos reproduzindo a arcaica lógica de priorizar a fluidez dos veículos no trânsito, como eu tristemente tentei ilustrar no vídeo abaixo.
Mudar isso precisa partir de uma nova visão de administração política mas, igualmente, de uma nova demanda de nós, eleitores. Uma demanda por uma cidade para as pessoas.













Concordo em tornar as cidades das pessoas. Tomar as ruas no bom sentido, usá-la e ter tranquilidade para se deslocar como se quer. Porém é difícil comparar uma cidade de 300km2 com uma de 248000km2.
Boníssima postagem!
E Carlos, difícil são as pessoas entenderem que cidades, estados, países e CARROS são feitos por pessoas, não o contrário.
O video ilustra bem uma realidade dificil do pedestre em SP, mas motoristas também são pessoas!!
O transito é um problema muito maior em Sao Paulo do que esperar 2 min para atravessar…
nessa cidade maluca sem respeito ninguem respeita ninguem, o pedestre é sempre visto como um empecilho na cidade. Tá na hora de exigirmos um respeito maior tanto para quem pedala como para quem anda na cidade. O Pensamento deve ser coletivo nao indivudualista pois a cidade somos nós.
Não há pessoas dentro dos carros, ou dos ônibus?
¬¬
Olá, sim, tem gente dentro dos carros e dos ônibus, gente presa dentro deles. Gente presa pagando impostos abusivos para comprar carros, gasolina sobre taxada e passagens abusivas.
O conceito da cidade para gente traz a noção de qualidade de vida e liberdade.
O espaço nas cidades é limitado. Priorizar ruas para carros é deixar sim as pessoas e uma cidade humanizada de lado. É deixar de lado ruas e calçadas que poderiam ser voltadas para transportes mais baratos, saudáveis e ecológicos. Se SP é maior que Copenhague, deveríamos nos preocupar ainda mais e não usar isso como desculpa.
Áreas opostas. População também. Atividades predominante produtivas numa e turística na outra . Assessibilidade diferente. Cultura divergente. Instabilidade demográfica, cultura, infraestrutura, e outros podem aminazar a situação mas não justificar o atraso de São Paulo que é uma cidade dentre as grandes falidas estruturalmente no mundo, que dificilmente um dia terá pique-nique nas ruas.
Creio que o problema dos pedestres em Sao Paulo nao pode ser vista de uma maneira isolada da problematica do transito caotico que enfrentamos em nossa cidade. O fato desta megalopole ter crescido sem um plano de metas e diretor que se preocupasse com um maior aproveitamento da area urbana aos outros tipos de locomocao, fez com que a utilizacao do espaco urbano seja ditado pelo uso dos automoveis. Enfrentamos, alem disso, uma questao geografica, ja que na Europa sao vastas as planicies. O pedestre esperar 2 minutos pra atravessar, no meu ponto de vista, é sim um grave problema pois voce o desestimula a procurar outras formas de locomocao. É a ditadura velada dos carros e isso, definitivamente, precisa ser repensado
Comparar Sao Paulo com Copenhagen eh a mesma coisa que comparar um elefante com uma formiga. Sao Paulo eh uma metropole, ateh mesmo a quantidade de habitantes eh mtu maior. Deslumbrado, caro amigo jornalista, the grass is always greener on the other side of the fence…
Baião destemperado
Cidade para todos !
Além do tempo de espera, ainda sofremos com um problema muito maior, algumas faixas de pedestre (principalmente em cruzamentos) que não dão nenhuma segurança ao pedestre, pois o trânsito dos carros nunca é interrompido totalmente.
O que foi relatado no post não se aplica apenas a São Paulo, mas a quase todas as grandes cidades brasileiras.
Se Copenhague tivesse o clima ameno do Rio de Janeiro, os pedestres e ciclistas pensariam duas vezes antes de deixar o carro em casa. Não dá pra comparar. Se a temperatura média do Rio fosse 20º mais baixa e o número de assaltos 20x menor, certamente eu encararia 30km diários para ir e voltar ao trabalho.